Milos Teodosic e a Eterna Pergunta

Esse texto pode começar com um pequeno desabafo? EU NÃO AGUENTO MAIS PERGUNTAREM O PORQUÊ DE MILOS TEODOSIC NÃO ESTAR NA NBA. Ai, que alívio. Não adianta, em toda offseason Teodosic vai dar uma sequência de passes geniais em torneios pela seleção para deixar todo mundo babando pelo seu talento, embora, acreditem, hajam haters dele (!!!!!!!!!!!!!!). São vários os motivos para que Teo não esteja em um elenco americano, que combinam fatores sobre seu caráter, jogo, salário, situação e esteriótipo. Como forma de responder essa pergunta em definitivo, elaboro este texto. Sempre que perguntarem, a partir de agora, vou mandar esse link. Obrigado, de nada.

Antes de mais nada, existe toda uma jornada por trás de Teodosic. Antes de ganhar a Euroliga na última temporada, era conhecido como um perdedor, alguém incapaz de conduzir sua equipe nos momentos decisivos. Este histórico existe por conta de seguidas atuações ruins em Final Fours pelo Olympiacos e CSKA Moscow. Aliás, o clube russo inclusive gerou o termo CSKAing, sinônimo de “amarelar”. Se você leva basquete no mínimo a sério, sabe que todos esses rótulos são de uma bobagem muito grande. Todo o processo até se tornar campeão faz parte do amadurecimento de Milos como atleta. Mas não dá pra negar, Teo jogou mal nas outras oportunidades que teve de disputar o título e foi por isso que tudo isso existiu.

Muito dessa história tem relação com o estilo de jogo de Teodosic. Sua apatia defensiva é algo que chama a atenção até hoje. Falta agilidade lateral de elite, mas também é possível ver que a técnica para defender entre bloqueios é terrível e não faz o mínimo esforço para não cair em mismatches normalmente. Nunca foi um defensor agressivo e costumava ser explorado no pick and roll. Claro, não é nenhuma aberração atlética e jamais seria um defensor mais do que mediano. Contudo, a inefetividade no setor defensivo sempre teve a ver com a combinação de físico e displicência. Só conseguiu apagar um pouco destes estigmas quando ligou o senso de urgência e brigou na retaguarda, notadamente na final da última EL e no Mundial de 2014. Ser um defensor ruim não é exatamente um grande chamariz para clubes de NBA, ainda mais numa liga dominada por armadores recentemente.

Indo além, Milos foi um cara muito problemático, um terror nos vestiários e, por vezes, parecia descompromissado com o que acontecia ao redor. Tanto é assim que o Lucas Pastore nos contou no Podcast que os jornalista sérvios não gostam muito dele. Tê-lo em certos ambientes poderia ser certeza de confusão ou surto geral de charutos e vodka. Por que acham que ele joga na Rússia? A verdade é que o sérvio acumulou brigas em diferentes lugares o suficiente para torná-lo um jogador do tipo “ame-o ou odeio-o”. Outro fator que contribui.

Mesmo no ataque Teodosic passou por algumas questões até se firmar. Antes das últimas duas temporadas, o seu arremesso de três pontos era mais conhecido por ser “bom, porém com seleção horrível” do que “ótimo, inclusive após o drible”. Para ver isto, basta notar a flutuação de seu aproveitamento:

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Seu estilo descompromisso, também, ajudou a ter problemas com turnovers por boa parte de sua carreira e sempre existe aquela desconfiança em lidar contra defesas mais atléticas. Mas é claro que Teodosic é muito talentoso, um dos passadores mais fantásticos e completos do mundo (pra mim o mais), alguém com um controle de bola, visão de jogo e versatilidade ofensiva fantástica, que melhora os companheiros ao redor, um maestro no pick and roll e que rende ofensivamente com e sem a bola em mãos. Obviamente que muita gente se interessou por causa disso e houve uma ou outra sondagem. Contudo, ninguém fez uma oferta que oferecesse dinheiro e papel na rotação relevante o suficiente para tirar-lhe da zona de conforto. O próprio Teodosic disse que quando queria ir, no início de sua carreira, ninguém o quis. Depois disso, meio que se desligou dessas ofertas e se focou em sua carreira europeia.

Antes do teto salarial virar essa loucura da última offseason, é importante lembrar que a NBA sempre foi muito conservadora em oferecer salários a jogadores europeus, normalmente na faixa de 3 milhões de dólares anuais quando muito. Teo ganhou isso em euros na Europa com papel relevante, garantido como estrela do time, perto de sua casa e construindo a própria história. Isso não é uma novidade para quem acompanha o basquete a mais tempo, basta pesquisar um pouquinho sobre quem foi Dejan Bodiroga. Se você quisesse tirar Teodosic da Europa, que oferecesse grana.

Mas Gabriel, Chacho ganhou 8 milhões de dólares anuais do Sixers agora e Teo é mais jogador. Por que não foi agora? Teo não era agente livre (só em 2017). Acredito que Milos valha isso (até mais) e que se surgir uma oferta em 2017, talvez seja o momento mais oportuno para sua saída, ainda no auge físico quando completar 30 anos. Entretanto, não acho que seja o cenário mais provável. Pra alguns jogadores simplesmente essa “jornada NBA” não faz tanto sentido assim e no CSKA, o maior orçamento da Europa ao lado do Real Madrid, tem a chance de ficar bons anos disputando títulos com um aumento salarial considerável. Na NBA, dificilmente vai ter a liberdade para decidir seu destino como na Europa. E quem vai fazer a oferta? Duvido que vá pra ser banco. Tem que ser uma equipe disposta a lhe dar papel e que tenha flexibilidade para oferecer algo em torno de 8-10 milhões de dólares. Até lá, Teo permanece na Europa, brilhando pra quem quer ver.

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