Indo Fundo na Versatilidade

Quando falamos em basquete moderno, o comum é pensar no garrafão. Os Strecht Fours Face Up Fives invadiram a NBA, sem que fossem uma novidade tão grande assim para o Basquete Internacional. É nítido que houve uma grande revolução na maneira em como se utiliza o espaço em quadra e como se dosa o ritmo de jogo. Os conceitos de Pace and Space e espaçamento de quadra invadiram o basquete. É praticamente impossível para um jogador de garrafão sobreviver nos novos tempos sem oferecer algum tipo de espaçamento, seja ele via cortes (DeAndre Jordans da vida) ou via arremessos de meia para longa distância. Embora durante a história do jogo houvessem gigantes que tivessem munheca calibrada, como Arvydas Sabonis e Hakeem Olajuwon, eles começaram a se tornar cada vez mais comuns e necessários às equipes, com distância de chute ainda maior. De artigos de luxo e raros, passaram a ser peças obrigatórias para a variação tática de sistema de jogo. Com a liberação das defesas em zona e dobras, investir nos arremessos é cada vez mais importante. A NBA do Small Ball está aí para ninguém duvidar, com os dois últimos campeões chutando inúmeras bolas de três pontos por jogo (Cavs 29.6 e Warriors 31.6 tentativas de chutes de longa distância por jogo em 15-16, que aumentaram ainda mais nos Playoffs).

Contudo, o basquete moderno vai muito além dos tais chutes. Times e jogadores, para sobreviverem e serem mais competitivos e completos, apostam na versatilidade. E este é o grande símbolo da nova NBA. Se antes defensores unidimensionais eram preferência ao invés de chutadores de três pontos, essa coisa se inverteu um pouco. Não que especialistas em chutes se tornaram mais valiosos, Steve Novak e Anthony Morrow estão aí para provar que não basta ser um bom chutador. A liga foi invadida pelos 3-and-D, que por definição são chutadores de 3 pontos que também defendem muito bem, de preferência múltiplas posições. Danny Green, Wesley Matthews, Kawhi Leonard, George Hill, Patrick Beverley, Avery Bradley e tantos outros são níveis diferentes de um tipo semelhante de jogador, capaz de alterar o jogo a partir destas duas habilidades. A cada draft, alas e armadores que se encaixam neste esteriótipo são cada vez mais valorizados, pois costumam ser encaixes fáceis em qualquer sistema ofensivo e defensivo. Você vai poder ignorar um Tony Allen no ataque, mas nunca vai estar confortável pra fazer isso com Bradley. Você poderá atacar incansavelmente Doug McDermott, só que não conseguirá replicar isso sobre Danny Green. Ter jogadores que são encaixes fáceis em um sistema ofensivo/defensiva aumenta sua versatilidade.

O 3andness

O 3-and-D-ness, índice que mede o impacto de um jogador na defesa e chutes de três pontos. Kawhi Leonard (surpresa!) lidera a lista.

Indo mais fundo nesta questão, gosta de classificar a versatilidade em duas principais formas:

Versatilidade Individual: Um atleta que consegue fazer várias funções em quadra é mais versátil individualmente que outro que não faz tantas funções, dentre elas arremessar de vários cantos da quadra, atacar de costas para a cesta, infiltrar, mover-se sem a bola, defender várias posições, proteger o aro, fazer bons cortas-luzes e proteger o aro.

Versatilidade Coletiva: Versatilidade coletiva diz respeito a um time que, em conjunto, possui características complementares em seus jogadores que o torna menos previsível e mais profundo nas maneiras como ataca e defende. Quanto menos fraquezas uma equipe oferece nas mais diversas áreas do jogo, mais versátil ela é. Existem times que possuem atletas versáteis, mas que não conseguem traduzir isso em versatilidade coletiva, pois existem lacunas em determinados pontos que não se complementam, ou não são bem utilizadas dentro de um sistema tático.

Dentro destes dois campos, existem inúmeras ramificações. Dentro da versatilidade individual, é comum associar jogadores versáteis a bons passadores fora da posição de armação, o que nem sempre é verdade. Ben Simmons, por exemplo, teve várias de suas habilidades questionadas por ter um grande problema de versatilidade ofensiva, já que não é ameaça chutando de fora do garrafão. Sabendo disso, vou pontuar diferentes formas de versatilidade individual:

Versatilidade Geral: É um tipo muito raro de versatilidade. Para se encaixar neste grupo, um atleta precisa ter um conjunto de físico e técnica muito privilegiado. A versatilidade geral engloba alguém capaz de pontuar de qualquer maneira em quadra (com e sem a bola, perto e distante do aro, infiltrando ou arremessando) e que ainda possui capacidade defensiva única, por defender múltiplas posições devido a seu conjunto de atributos físicos privilegiados (explosão, agilidade lateral, mobilidade, força, envergadura, altura, velocidade de pés), além dos instintos e técnica defensiva. Além de, claro, criar jogadas para os companheiros e se encaixar nos mais diferentes sistemas de jogo. O exemplo máximo disso é Kevin Durant, um jogador de 2,13 de altura que pontua da maneira como quer e ainda é um monstro defensivo quando focado. Outro exemplo é Draymond Green, que apesar de não ver um volume shooter, faz de tudo um pouco nos dois lados da quadra. LeBron James é outro, apesar de não ter um arremesso tão bom, que é compensado por um físico sobrenatural.

Versatilidade Física: A versatilidade física independe da técnica. Nela, o atleta possui atributos físicos privilegiados que o ajudam em qualquer situação que precisar, mas ela só é completa e mais valiosa quando a parte técnica ajuda. Jogadores como LeBron e Durant, novamente, elevam isso ao máximo nível possível, enquanto outros não sabem utilizar tão bem seu físico. Andre Roberson é um grande exemplo de jogador versátil fisicamente. Seu tamanho, força, envergadura, explosão e capacidade atlética o coloca em bastante vantagem contra diferentes tipos de jogadores. Contudo, essa sua versatilidade se traduz mais em versatilidade defensiva, pois no ataque, faltam recursos para utilizar seus atributos físicos fora de situações em que é deixado sozinho para fazer cestas próximas ao aro.

Versatilidade Defensiva: A versatilidade defensiva é representada por um atleta que possui atributos físicos e técnicos ideais para marcar várias posições. Jogadores muito baixos tendem a não serem versáteis defensivamente, pois levam muita desvantagem contra jogadores muito altos. O contrário também acontece, com jogadores altos sem ter o controle corporal ideal para lidarem contra baixinhos velozes. Atletas de tamanho mediano costumam ser mais versáteis defensivamente. Draymond Green, Michael Kidd-Gilchrist e Kawhi Leonard são exemplos de jogadores versáteis na defesa, por serem atléticos o suficiente para marcar a maioria das posições sem ter problemas de agilidade, terem técnica e esforço defensivos apurados para causarem grande impacto, e tamanho/envergadura para interceptar linhas de passe e proteger o aro.

Versatilidade Ofensiva: A versatilidade ofensiva é caracterizada por atletas que possuem recursos o suficiente para pontuar e criar oportunidades para pontuar de várias maneiras em quadra. Alguns atletas são ótimos pontuadores/criadores, mas não necessariamente versáteis, pois quando postos fora da bola, são inúteis (Russell Westbrook, Allen Iverson, Rajon Rondo, Al Jefferson, entre outros). O jogador versátil ofensivamente é capaz de pontuar de qualquer lugar da quadra, sem necessariamente estar com ela em mãos, como já abordamos sobre Kevin Durant, mas também que sabe passar a bola. Um jogador não tão valorizado por isso que é muito versátil é Nicolas Batum, um grande arremessador que passa a bola com extrema facilidade e funciona com e sem a bola em mãos. Stephen Curry também é outro exemplo de jogador versátil no ataque, alguém que costuma manter o drible vivo sob pressão, arremessa fora da bola e após o drible com facilidade e eficiência assustadora, além de ser um finalizador próximo ao aro muito bom para alguém de seus atributos físicos (foi o melhor finalizando ao redor do aro entre todos os armadores em 15-16). Jogadores versáteis no ataque vão se encaixar em qualquer esquema proposto.

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Dentro da versatilidade coletiva, o esquema é basicamente o mesmo. Alguns times oferecerem mais versatilidade defensiva por terem um conjunto de atletas de tamanho mediano e atléticos o suficiente para instaurar um sistema que produz poucos mismatches, algo que o Bucks tem tentado fazer. Outras equipes são mais versáteis no ataque por possuírem poucas fraquezas e jogadores a serem ignorados pela defesas. Normalmente, movimentação sem a bola, distância de arremesso, vários criadores e entrosamento criam times muito versáteis na hora de atacar. Destacamos o Warriors neste sentido, uma equipe muito difícil de defender pelo conjunto de arremessadores altos, rápidos e cheios de QI que possuem. É basicamente o mesmo raciocínio do individual traduzido pro coletivo. O Toronto Raptors, por exemplo, foi muito contestado nos Playoffs por ser uma equipe com problemas de versatilidade, já que faltaram arremessadores e passadores no garrafão, além de criação secundária e chutadores puros no perímetro. Uma escolha por um jogador significava um sacrifício em outra área. Times versáteis não precisam de grandes sacrifícios para mexer em seu sistema de jogo perante outros adversários.

Obviamente, existem jogadores não tão versáteis que sobrevivem na liga por algum motivo. Por vezes, ter um especialista de alto nível é útil em um elenco, alguém capaz de modificar o jogo por uma característica única. Como exemplo, cito Boban Marjanovic usando seu tamanho colossal, Marco Belinelli entrando para matar bolas em sequência de longa distância e Louis Williams monopolizando a bola para mudar o rumo de um jogo via seus arremessos após o drible. Contudo, são jogadores que precisam de situações específicas e contextos certos para serem usados. Não são peças de ultra confiança para um técnico. A NBA caminha para versatilidade e fazer várias coisas em quadra é o grande sinônimo de construir uma equipe profunda e vencedora.

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