Uma Análise dos Blogs de Basquete

Se você veio parar aqui, certamente já sabe o que o comentarista da ESPN, Eduardo Agra, andou aprontando em suas redes sociais por aí. Caso não esteja por dentro, o ex-atleta jogou indiretas no Twitter a blogueiros que nunca haviam “conquistado bolhas nos pés” e que mesmo assim se metiam em fazer críticas, dizendo que este deviam se limitar ao jornalismo investigativo e “marrom”, que ficaria menos feio, além de fazer outros ataques, ao contabilizar a quantidade de comentaristas ex-atletas que estava na TV e bloquear geral que não concordasse com seu pensamento. No fim das contas, acabou bloqueando gente que nem na discussão entrou. Enfim, um desastre sem igual, que você pode conferir acessando a conta dele. Eu, não mais, pois entrei no Block Party.

Mas ao invés de descascar o Agra por aqui, vou propor outro ponto. Estou desde 2013 produzindo conteúdo na internet e existe gente por aí que está para completar uma década de escrita basqueteira, como o Jumper Brasil e o Bola Presa. Dentro deste universo todo, a blogosfera brasileira já se transformou bastante, assim como o status dos blogs como um todo. Para quem começa hoje, é um pouco mais difícil se solidificar como produtor de conteúdo. A mídia escrita perdeu espaço para os youtubers e algumas outras formas de produção de conteúdo ao pouco vão despontando, como o podcast. Contudo, os blogueiros ainda sobrevivem em coisas que a escrita pode oferecer em melhor padrão, como na imersão que um texto profundo/estatístico/emotivo pode promover e na descrição dos fatos. Ainda assim, os blogs vêm e vão e são vários os que encerram as atividades ou passam tempos sem produzir muita coisa. Para se manterem informados e atualizados, exigem uma dedicação colossal em, primeiro, acompanhar o conteúdo, para depois produzí-lo. E quem produz conteúdo precisa também consumir conteúdo de outros. É uma forma que criar contatos e enxergar coisas que ele próprio não havia percebido. Além do mais, é humanamente impossível ver tudo o que ocorre na NBA. E chegamos a pergunta: em que condição os blogueiros não renumerados estão para produzir conteúdo regular e de qualidade?

Se nos focarmos somente no basquete, vamos fazer umas contas. São 82 jogos que cada clube de NBA faz por temporada, sendo que são 30 clubes que compõe a liga, totalizando 2460 partidas. Para quem acompanha a Euroliga, serão 16 clubes que se enfrentam em turno em returno, resultando 480 jogos. E ainda tem NBB, Liga ACB e outras ligas domésticas para os mais bitolados. Aí, haja tempo para conhecer a imensa maioria dos clubes e a maneira como jogam. E para dissecar atuações em sequência, é preciso acompanhar vários jogos de uma mesma equipe, que podem ou não estar na TV, o que exige recorrer a streamings ruins ou aos League Passes da vida, que precisam de investimento financeiro, quando a própria liga não disponibiliza de graça. Para deixar um pouco mais complicado, a gente trabalha, estuda e, supostamente, tem vida social, que vai pro saco em época de Playoffs. E como se dedicar a tanta coisa ao mesmo tempo e realmente conhecer? E mais ainda, quanto são os comentaristas que realmente podem ou fazem este esforço? Pela qualidade de algumas transmissões, sabemos que são poucos.

Na condição de blogueiros que possuem uma vida fora do basquete, o mais fácil é repetir clichês, cuspir análises dos outros, ficar semanas sem postar devido a perrengues pessoais e produzir conteúdo raso para que haja atualizações sempre. Neste sentido, blogs e sites de equipe reduzida sentem muito, por não conseguirem dar conta do recado com regularidade, tendo a condição de especialista até relativizada. Num país como o Brasil, em que o basquete é de nicho, conteúdo especializado é algo para um micro-mundo de loucos. Renumerados são pequenos, o único que realmente tira boa parte de seu sustento via o basquete é o Bola Presa, que vem de seus leitores. Jumper Brasil, Fábio Balassiano, Giancarlo Giampietro, Luís Araújo, Vitor Camargo e outros produtores de conteúdo o fazem na raça, numa mídia que tem como tendência o decrescimento e fazem sacrifícios enormes para continuarem sendo influentes do esporte em suas redes sociais. E essas redes são bem seletivas em termos de audiência. O Facebook, a rede mais popular do mundo, uma internet a parte para muitas pessoas, é uma das mais sacanas no que diz respeito a sua timeline. Se você não pagar um BOM DINHEIRO, seu conteúdo não alcançará tantas pessoas e dependerá da visita do amigo internauta em sua página para que ele sempre veja o que está sendo postado. E como é muita gente escrevendo, nas mais diversas línguas, não dá para pedir que o leitor acompanhe todo mundo. Ele vai ser seletivo e ter suas preferências, dependendo de seu perfil como consumidor. Fidelizar a audiência é um troço pra lá de complicado e muita gente ainda cai na armadilha do caça-cliquismo para arrancar boas impressões nas analytics, que acabam sendo um tiro na culatra depois. Estão correndo contra o tempo a todo momento.

Então voltando ao parágrafo inicial, quando Agra diz que blogueiros não podem produzir conteúdo por não terem jogado, ele está errado, pois acabou generalizando, atacando uma classe inteira por não querer nomear os bois. Obviamente, pelas imensas limitações passadas, que existem blogueiros que não conseguem manjar de basquete. Aí, neste ponto, o papel é da audiência em dar sua atenção. Por outro lado, em condições muito melhores, parte dos comentaristas não fazem o esforço que grande parte dos blogueiros fazem em tentar levar conteúdo de qualidade. O espaço da TV é limitado para análises muito profundas, por questão de tempo, e alguns, colocados em seus vícios de ex-atletas, acabam por repetir clichês e se atrasam em como o basquete é jogado ultimamente por estarem abarcados a um saudosismo pela maneira em como se jogava o esporte em sua época, sem reconhecer todo o dinamismo que o esporte passou no Século XXI, interferido pela ciência que mostrou vários pontos em que as modalidades poderiam melhorar, principalmente no aspecto físico e estatístico.

O que temos é que tanto comentaristas de TV como blogueiros podem ter seu status como especialistas relativizados. Ambos, caso não estejam realmente informados, podem se abarcar em reproduções indiretas dos mais atrasados e errados conceitos. O que muda entre ambos é o público que atingem e o dinheiro que recebem. O futebol, pouco a pouco, foi dando espaço a jornalistas por eles estarem vendo por fora das quatro linhas coisas que quem estava dentro de campo não enxergava. Se especialistas desta condição em outros esportes forem ganhar este tipo de visibilidade, ainda não sabemos, mas o que esperamos é que aconteça. O mundo basqueteiro precisa de mais Zach Lowes e de menos Charles Barkleys.

A internet é um fenômeno recente e sua popularização se deu na década passada. Neste sentido, blogueiros percorrem um caminho cruel e cheio de armadilhas até se abrirem novos mundos. Talvez os grandes autores de hoje virem referências para quem está começando mais para frente. Como Bola Presa e Two-Minute Warning serão enxergados daqui a 40 anos pelos seus textos e visões do esportes? Não é uma pergunta que convém responder agora e ainda há muito o que acontecer. Uma coisa eu aposto, suas visões como analistas de basquete serão mais respeitadas que de vários comentaristas.

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