Olimpíadas TimeOut #28 – Reflexões Olímpicas

E lá vamos nós refletir um pouco sobre o torneio de basquetebol olímpico que ocorreu a pouco. Em que pese uma primeira fase empolgante e digna de algumas surpresas e desafios interessantes para a maior parte das seleções (exceto China e Venezuela, que viviam o desafio constante de tentar não perder de 30 pontos de diferença), vimos um final pra lá de sem graça, com poucos jogos realmente equilibrados no mata-mata e um Team USA no auge de sua atenção defensiva logo na partida final, emulando o espírito de Playoffs que Shaq mostrou ao mundo que é o que importa. Ou pelo menos importa pra quem pode ir empurrando com a barriga até lá. E este só é o caso para a seleção americana, ao menos no nível de competições internacionais. Tudo aquilo que se propagou de haver certo equilíbrio entre a 2° e 9° melhores seleções é verdade gente, embora haja obviamente times mais e menos profundos neste intervalo, além de existirem match ups bons e ruins dentro deste bolo. E ainda venho vos lembrar que Canadá, Itália, Grécia, Eslovênia, Letônia, Bósnia-Herzegovina, Turquia, Montenegro, Porto Rico e Polônia tem porte tão bom quanto alguns do emaranhado olímpico. E para fechar, vemos a Nigéria crescendo na base de descendentes americanos e Senegal que está aí revelando aberrações físicas de vez em sempre. E aí fica a pergunta: Existe bobo no basquete™? Bobo é quem faz esta pergunta, mais por repetir o clichê do que pela resposta, que é óbvia. Para isto, basta fazer como eu e assistir partidas do AfroBasket Sub18 e do FIBA Small Countries, uma prova de amor ao basquete, ou só masoquismo mesmo.

Mas vamos lá, o Team USA continua sendo esse Guaraná Dolly todo? Sim. Isso é um problema? Depende dos termos. Na real, nenhuma outra seleção jamais teve o conjunto de talentos que os americanos possuem. Esta problemática foi algo que se fortaleceu desde o Dream Team 92 até aqui, quando os estadunidenses cansaram de mandar times de estudantes para botar seus super astros em quadra. Fosse nos Anos 60, 70 e 80, mesmo, não teria Sergei Belov, Nikos Gailis, Oscar Schmidt, Kresimir Cosic, Wlamir Marques ou Janis Krumins que aguentasse esquadrões de Jerry West, Bill Russell, Wilt Chamberlain, Kareem Abdul-Jabbar, Oscar Robertson, Moses Malone e tantos outros craques no auge, por melhores que os internacionais fossem, mesmo não sendo tão valorizados assim hoje (precisaram fazer uma escolha dura na época que é ignorada aos montes pelos mais ignorantes e alienados). No fim das contas, este desnível sempre existiu, a diferença é que os americanos começaram a se importar com o resultado, ao ver um jovem David Robinson perdendo para um jovem Arvydas Sabonis. E os fracassos do início dos anos 2000 só serviram para aumentar a sede por vingança e dominação mundial (tão americano…). Com o dinheiro, estrutura, população, cultura e diversidade física que possuem, é difícil pedir que qualquer outro país do mundo compita com esses caras. Quem mais tem condição é a China, pelo tamanho daquela nação e a quantidade de gente que possuem. Contudo, a cultura do jogo e a disciplina tática da Liga Chinesa é constantemente ridicularizada pelos externos a ela, que não veem nenhuma partida dela, mas acham extremamente engraçado que Jordan Crawford faça 72 pontos lá (e com certa ração). Agora, vá pedir para países minúsculos como Croácia, Sérvia e Lituânia que façam mais do que podem. Pura covardia. Nenhum deles possui mais de 10 milhões de habitantes, isso lembrando que basquete exige uns caras bem grandes, que nunca são maioria de população nenhuma. Neste sentido, a França é quem faz o melhor trabalho, com vários descendentes de africanos surgindo por lá cheios de potencial físico, o lado do sorriso branco que a população cristã francesa dá aos muçulmanos negros e atléticos. Brasil poderia emular algo do tipo, com toda a diversidade que temos, mas falta a tal cultura do esporte, além de investimentos.

Tudo bem, mas o Team USA já não perdeu uma outra vez? Sim, é verdade. Entretanto, os elencos liderados por Dirk Nowitzki, Pau Gasol, Tony Parker, Sarunas Jasikevicius e Manu Ginobili nunca foram realmente mais talentosos que a nata dos EUA. Porém, você tem razão em apontar que existe uma entressafra de estrelas internacionais. Quem na faixa dos 26-30 anos está se mostrando um atleta candidato a superestrela por aí? Existem caras muito sólidos neste meio, tais como Nicolas Batum, Marc Gasol, Danilo Gallinari, Bojan Bogdanovic, Milos Teodosic e Nando De Colo, porém, nenhum ainda atingiu o status que Pau, Dirk, Nash e Manu conquistaram em seus respectivos auges. Contraponto isto, a NBA está repleta cada vez mais de talentos do mais alto nível atlético de diferentes países. Giannis Antetokounmpo, Mario Hezonja, Dante Exum, Ben Simmons, Dragan Bender, Timothe Luwawu, Karl Anthony-Towns, Thon Maker, Kristaps Porzingis, Rudy Gobert, Andrew Wiggins, e outros fazem parte de um conjunto de talentos que mais parecem criados em laboratórios e que não defenderão a seleção americana. O problema? Poucos deles jogarão por uma mesma nação. Enquanto isso, um monte de sobrinhos do Sam forma um time só. Então entramos em um ponto, até que existem talentos nos mais diferentes países, mas eles estão espalhados pelo globo e não formaram um superconjunto para combater o crime e as forças do rebote ofensivo.

As estatísticas de rebotes ofensivos que demonstram o verdadeiros domínio americano.

As estatísticas de rebotes ofensivos que demonstram o verdadeiro domínio americano.

E tem algum jeito das Olimpíadas e do Mundial ganharem graça? Depende do que os EUA vão levar, ou da seriedade de como tratarão os torneios. Até que se prove o contrário, o EuroBasket segue como muito mais imprevisível e empolgante. Acompanhar ou não todo esse desenrolar depende bastante da forma como você encara o basquete fora do Norte da América. Você assiste Euroliga? Gosta do sistema de regras da federação internacional de basquete? Se identifica com as histórias e jornadas de atletas internacionais que fazem o máximo possível para levar sua nação longe? No mundo dos tais “Esportes Americanos”, só o Canadá no Hóquei para jogar na cara da sociedade que é melhor e virar piada por isso nas mais diferentes séries, filmes e desenhos. O basquete é extremamente popular, mas não existe força mística que vá tornar o mundo inteiro forte de repente. E nos lugares em que é mais popular (países bálticos e balcânicos, França, Espanha, China, Grécia, Porto Rico e Filipinas), falta várias coisas para atingir o nível dos aprendizes de Naismith, dentre elas, dinheiro, lembrando que a Europa não vive a situação econômica mais confortável do mundo, Grécia e Espanha podem falar muito bem disso.

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Um monte de gente que não vê uma partida de Euroliga sequer vai falar da modalidade e do desnível que existe. Embora elas tenham razão no protesto, boa parte não conhece os contextos e está dentro da visão “NBAcentrística” da coisa. O basquete mudou, internacionalizou-se e está aos poucos se monopolizando nas mãos de uma liga. O mundo está globalizado e todo este conceito de disputa entre nações pode começar a perder sentido com o tempo (ou não, pois as Olimpíadas são espetaculares). No fim das contas, o basquete sobreviveu as férias pertinho de nós e nos colocou novamente para pensar. De diferenças de uma posse a lavadas, ainda me divirto e assisto, o que talvez seja a minha reflexão mais precisa e relevante. Ainda é legal assistir basquete internacional? Eu adoro, independente de quem ganha a medalha de ouro. Mas obviamente que uma competitividade maior deixaria mais interessante.

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