Olimpíadas TimeOut #16 – Análise da Primeira Rodada

E começaram as Olimpíadas! Assim como prometido em nosso cronograma no Apoia.se, viemos com o resumo da rodada, com análise tática do que melhor aconteceu. Não espere um cronograma da partida perpassado aqui, mas sim os fatores que foram decisivos em cada partida.

Austrália 87 – 66 França

O que Austrália fez de bom?

  • Movimentação Ofensiva fora da bola: Patty Mills e Matthew Dellavedova são mais chutadores em meia quadra do que criadores puros. Neste sentido, era bom que ambos fossem se mover fora da bola, além dos alas, para que fossem acionados para o chute ou para iniciar jogadas após um bloqueio indireto ter distanciado ou dificultado a vida do armador. Nestes casos, era comum que algum dos armadores trouxesse a bola da defesa pro ataque e passasse para Joe Ingles (6 assistências) ou Andrew Bogut (5 assistências) iniciar as ações da cabeças do garrafão sem dribles, em handoffs, esperando que Mills e alguns dos alas se deslocassem sem a bola para cortes para dentro do garrafão ou bolas de três pontos. Em jogadas assim, o armador do Spurs anotou muito pontos, fechando a partida com 21 pontos e 4-9 em bolas de três pontos.
  • Pick and Roll Delly-Bogut: Delly foi quem mais conduziu a bola. Todos sabemos que Bogut não é exatamente ágil, mas soube usar seu tamanho e habilidade de salto para receber inúmeras ponte-aéreas no pick and roll do novo armador do Bucks. Além do mais, soube usar o tamanho para finalizar alguns ganchos isolados.
  • Defesa de Cobertura/Tall Ball: Usar um quinteto com Aron Baynes e Andrew Bogut ao mesmo tempo é algo engraçado, coisa que você jamais verá na NBA. Contudo, a falta de espaçamento da França facilitou este uso. Basicamente Bogut aproveitou a ausência dos três segundos de garrafão para ficar parado ali quando alguém tentava explorar tamanho em Patty Mills (principalmente De Colo), ou mesmo cobria atletas que vinha cortando da zona morta para o aro. O pivô ex-Warriors terminou com +28 no +-.

O que raios a França fez para perder este jogo?

  • Abordagem Ofensiva: Sem muito movimento sem a bola, o ataque francês foi muito baseado no pick and roll de Tony Parker. Ele até que foi bem (18 pontos, 6-14 nos arremessos de quadra em 20 minutos), mas as ações foram previsíveis. Ou buscava espaço na meia distância, ou infiltrava. E ninguém respeitava seu arremesso, com Delly passando sempre por trás do corta-luz. E Parker pagou o risco chutando 5 bolas de três pontos (acertando apenas uma). Além do mais, Rudy Gobert foi muito mal em completar o bloqueio com impacto ofensivo e havia pouquíssimo movimento sem a bola.
  • Espaçamento: Gobert é um defensor fantástico que deu vários tocos em Baynes na cobertura, mas no ataque, não soube o que fazer. Recebeu, por mais de uma vez, passes na linha de três pontos como estivesse posicionado como chutador, em que foi prontamente ignorado. Não é a melhor maneira de usá-lo. Neste caso, é melhor usar Joffrey Lauvergne, porém o ala-pivô do Denver Nuggets foi igualmente ruim, errando todos os seus quatro arremessos que tentou na meia distância. Boris Diaw, também importante na hora de abrir a quadra, chutou 1-5, vários desses livres. Quanto as alas, a Austrália fechou Batum/De Colo e ignorou a existência de Gelabale, Tillie, Diaw, Diot e Heurtel, que mais atacavam a cesta, caindo na armadilha Bogut.
  • Batum/De Colo: O bom da França é ter vários criadores em várias posições diferentes. Mas pra isso, você precisa usá-los. Foram pouquíssimas as posses em que Nando e Nicolas foram os criadores primários. Na maior parte das vezes, jogaram sem a bola, parados na zona morta. Com isto, ficou mais fácil combater Parker.
  • Inoperância Defensiva: Tony Parker, Thomas Heurtel, Nado De Colo, Boris Diaw e Kim Tillie. Boa sorte em tentar defender com esses caras jogando com tanta moleza. Não souberem lidar com a forma de operar o ataque australiana.

China 62-119 Estados Unidos

Fatores Decisivos pro Jogo:

  • A China é formada por jovens que jogam de maneira desornada, sem chutadores ou jogadores habilidosos que por si só já cometem erros não forçados. Imagina contra o Team USA.
  • É muito talento para esses magrelos defenderem em transição.
  • Kevin Durant é um monstro de 200 metros de altura e 500 quilômetros de braços que faz o que quer com a bola (25 pontos, 4 rebotes e 6 assistências em 22 minutos).
  • É covardia acionar DeMarcus Cousins no garrafão.

Venezuela 62 – 86 Sérvia

Com o que a Venezuela não soube lidar?

  • Tamanho/Agressividade no garrafão: A Sérvia aciona muito bem seus pivôs no garrafão, tanto em pick and rolls como em passes diretos na cabeça da área pintada. Aí, faltou tamanho e força para brecar Raduljica, que quando veste a camisa da seleção, vira uma força descomunal, nível Luis Scola. O barbudo joga com muita agressividade, descolando 18 pontos em 8 arremessos em módicos 15 minutos. Pesado e baixo, Echenique não tinha o que fazer.
  • Troca de Passes: Com intenção movimentação sem a bola e a presença gravitacional de Teodosic/Bogdanovic, a Venezuela não teve velocidade e capacidade atlética para acompanhar as trocas de passes e inversões de jogo do balcânicos. 22 assistências para 32 cestas de quadra.
  • Rebotes: Até que a Venezuela consegue incomodar no rebote de ataque, mas na defesa, falta tamanho e box out para causar estrago. Os sul-americanos conseguiram 13 rebotes de defesa, o mesmo número que os sérvios pegaram no ataque.
  • O Jogo acabou muito cedo: Quando vimos Vladimir Stimac pisar em quadra ainda no segundo quarto, deu para perceber que o jogo acabou, vitória moral.
  • Ritmo no Ataque: Dependem muito de bolas forçadas dos armadores, que não caíram (Família Vargas 5-19, Cox 3-9 e 2-10 Lewis). No geral, foram apenas 36,5% no aproveitamento dos arremessos.

Brasil 76 – 82 Lituânia

20 minutos de CAOS:

  • Mantas KAOSnietis: Leandrinho começou em cima de Kalnietis, sinal que não queria deixar Huertas ser abusado em sua falta de deslocamento lateral. Contudo Leandro saiu cedo e em outras situações Marcelinho voltou a ficar de frente ao lituano, que se lambuzou dos espaços que foram gerados, seja para chutar, seja para quebrar a linha defensiva. Contra este tipo de jogador, Huertas vai ser alvo, não tem jeito.
  • Faltas no Garrafão: Vendo a primeira linha defensiva sendo quebrada, os pivôs brasileiros (Hettsheimeir, Felício e Augusto) foram logo sendo carregados por faltas. Juntos, combinaram para 13 infrações em 41 minutos, o que é péssimo, além de não dar continuidade.
  • Dobras atrasadas: Se for para dobrar, que seja com rapidez para fechar as linhas de passes. Dois segundos de atraso, espaço aberto e tome bandejas livres. Jonas Valanciunas mal precisou ser acionado para que a vantagem fosse aberta. Paulius Jankunas deitou e rolou da meia pra curta distância (15 pontos, 6 rebotes e 3 assistências em 22 minutos).
  • Espiritismo: Maciulis e Kalnietis, em alguns pontos, também contaram com a sorte, com bolas improváveis caindo. Obviamente que isso foi eventualidade.
  • Espaçamento: Lima e Nenê, ao mesmo tempo, não oferece espaçamento nenhum, assim como Felício. Alex e Huertas não tem arremesso respeitado e Marquinhos estava com a mão fria. Aí já viu, muita gente pra pouco espaço. A falta de chutadores puros foi um problema que não fo superado pela movimentação de bola. Comumente tentou-se acionar Nenê no poste baixo, que está longe de ser seu forte. E que desastrosos foram os minutos de Giovannoni, alvo total na defesa e sem espaço para receber bolas no ataque.

Os 20 minutos da volta:

  • O Brasil conseguiu se recuperar com um quinteto mais veloz e enérgico. Nada de Giovannoni, Hetts ou Huertas e mais Raulzinho, Felício e Augusto. Raul não é tão alto, mas possui deslocamento lateral de elite para pressionar Kalnietis. Além do que, houve certo relaxamento lituano que permitiu a reação. Leandrinho ainda esteve pegando em fogo, punindo trocas e mostrando seu arranque. Mais atento e combativo na defesa, o Brasil conseguiu inúmeros pontos em transição, coisa que é o melhor que se faz contra a Lituânia, que tem poucos jogadores atléticos na rotação. Faltou tempo e acertos no final, porém paga-se pelos erros grotescos do início.

Croácia 72 – 70 Espanha

Abrindo Vantagem:

  • A Espanha abriu vantagem cedo. Os armadores pressionaram bastante a bola para fechar as linhas de passe. Aqui é a melhor maneira como defendem. Rubio, Chacho, Rudy e Llull vão colar nos adversários para evitar que o garrafão seja invadido, pois ali que costumam ser machucados. Foi desta forma que conseguiram brecar as ações, forçando um perímetro pouco criativo do outro lado a tomar decisões ruins.
  • Efeito Gasol: Pobres Bilan e Planinic. Contra alguém com tanto recurso como Gasol, não há o que fazer. Chuta bola de três daqui, vai pro post up dali e confunde todo mundo. 26 pontos e 9 rebotes para Pau, um monstro ofensivo.
  • Mão fria: Vai ser duro pra Croácia criar jogadas com Simon e Saric chutando 0-9 pra três pontos. Para serem respeitados, precisam estar com a mão calibrada.

Brincando com Fogo:

  • Vai brincando Scariolo. Navarro, neste ponto da carreira, nem chuta nem defende. Aí para jogar 12 minutos? Tem que ser garbage ou minutos de bola final. Reyes e Hernangomez juntos? Ambos não oferecem nem proteção de aro nem espaçamento. Aí o garrafão fica ocupado e ainda não tem tamanho para lidar contra bons reboteiros. Então veio Darko Planinic abusar disso ao descolar 10 lances livres e 3 rebotes ofensivos em 23 minutos.
  • Ukic Time: Ukic não é nem um pouco confiável, mas seus chutes de três pontos nada consistentes serviram para cortar a diferença, assim como sua presença dos rebotes e tamanho.
  • Saric criando: Carregando a bola da defesa pro ataque ou recebendo a bola após o corta-luz. Das duas formas, Saric é especial com a bola em mãos, que renderam 5 assistências. Muito natural puxando a bola em transição. Foi coroado com o toco vencedor da partida em cima de Gasol. 21 anos.
  • Displicência: Passes sem olhar, risos e distração. Por alguns momentos, Espanha estava encarando o jogo como se fosse os Estados Unidos. No fim das contas, levaram a virada e perderam. Que fique a lição.
  • Bogdanovic e o tamanho: Claver não tem velocidade para jogar no perímetro. O perímetro espanhol é muito baixo para lidar com Bojan. O ala croata fez a festa com o ótimo match up que recebeu.

Nigéria 66 – 94 Argentina

A Nigéria é basicamente um time atlético e esforçado que pega rebotes. Contudo, nem esforço nem rebotes foram entregues contra a Argentina. No ataque, a ausência de criadores facilitou demais a vida dos hermanos, que não precisaram de muito esforço para abrir vantagem e finalizar a partida bem cedo. Foram 20 erros para 12 assistências dos nigerianos, pressionados e forçados a tomarem decisões péssimas. Foi feio.

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