Olimpíadas TimeOut #12 – Reflexões sobre a Seleção Brasileira

Lá se foi uma fase de amistosos preparatórios e, de repente, já estamos com as Olimpíadas no cangote. O Brasil passou a preparação de maneira invicta, ganhando jogos de Romênia, China, Austrália e Lituânia. Quanto ao nível de China e Romênia, bem, não tem muito o que comentar, a seleção brasileira é realmente bem mais talentosa. Contra a Austrália, o fit perfeito, quando comparamos a mobilidade do garrafão brasileiro com o australiano. De frente a Lituânia, um jogo de verdade, contra um adversário forte e com coisas relevantes a serem observadas. O resultado vitorioso foi bom, mas não deve ser levado muito a sério, pois os elencos ainda estão escondendo boa parte do jogo.

O Grupo de Selecionados acaba se encaixando em três categorias diferentes: Jogador de NBA, Jogador de Europa e Estrela do NBB. E dentro dessas categorias, devemos lembrar que todos estes atletas já haviam sido testados ao menos uma vez na seleção principal. Com dívidas crescentes, um convite pago lá atrás e uns torneios desastrosos aqui e acolá, pelo menos algumas figuras são bem carimbadas. Com sensação de dívida e uma Olimpíada em casa, até entendo o pensamento de levar um jovem ou outro para o elenco, mas não é como se fosse o momento ideal. Ao lado do Mundial, é a principal competição do basquete internacional. Por vida das dúvidas, melhor levar 12 jogadores preparados do que 10 que podem jogar e 2 que não podem sonhar em pisar em quadra. Sabemos bem como jovens são pouco preparados para este tipo de competição e de como eles não ganham muito espaço por aqui. Basta ver as outras seleções como exemplo também. Jovens no elenco? Só se forem produtivos e consolidados a nível internacional, como Nikola Jokic, Dario Saric, Alex Abrines, Willy Hernangomez e Domantas Sabonis. Mesmo calouros do porte de Ivica Zubac, Ante Zizic, Timothe Luwawu e Dragan Bender foram ignorados. Jokic e Saric, aos 21 anos, foram MVPs de Pré-Olímpico. Fazem quantos anos que um jovem dessa idade não aparece com essa produtividade na seleção? Splitter deve ter sido o último.

Tudo bem, entramos no ponto em que chegamos aos últimos momentos de uma geração. No entanto, sem Tiago Splitter e Anderson Varejão, existe uma espécie de transição forçada. Cristiano Felício não iria, já que precisava garantir seu contrato via Summer Leagues. E convenhamos, ninguém quer ficar desempregado, vendo as chances de garantir o trabalho dos sonhos de perto. Deu sorte, com o destino irônico dando uma nova chance ao rapaz, o que caiu bem para quem fez questão de lhe julgar a base de argumentos ufanistas. Ao lado de Augusto Lima, Cristiano me parece o caminho natural para formar a futura dupla de garrafão brasileira por ano a fio, assim como Rafael Hettsheimeir tem alguns anos de seleção pela frente. Talvez Splitter ainda renda um ciclo, se o físico deixar.

E o mesmo destino que sorriu para Felício foi ingrato para Varejão. A raça em pessoa, o pivô do Golden State Warriors está com uma draga danada. Existiam várias dúvidas sobre sua capacidade em contribuir, analisando o que fez por Cavs e Warriors, e ainda lhe vem uma lesão. Será que estamos vendo o fim de Anderson próximo? Uma pena, para um jogador que, no auge físico, foi um dos reboteiros mais enjoados do mundo, que ainda era capaz de movimentar a bola e marcar jogadores de várias posições, com velocidade anormal para alguém de seu tamanhão.

A competição que poderia dar o fim da geração Huertas-Leandrinho-Nenê-Splitter-Varejão só vem representada por três deles. Nenê, ao que me vem à cabeça, sempre foi um grande nome, relevante na NBA e produtivo toda vida, quando o corpo deixou. O que é mais louco é que, neste ponto da carreira, seria difícil achar um quinteto em que os pivôs coubessem em dupla na quadra. Todos, arrastados por problemas físicos, não teriam a mesma mobilidade de antes. Hetts e Lima estão aí para revezar na função de titular, dependendo do fit mais adequado. Ou mesmo se não mudar as linhas, que altere isso durante o jogo, no tempo de quadra.

Os armadores do ciclo chegam em alta pelo final de temporada que fizeram. Huertas foi solenemente ignorado por Byron Scott no início da temporada, mas não pelos vines. Por sorte, esqueceu um pouco essa coisa de Lou Williams e Nick Young para deixar o veterano cuidar um tiquinho da armação, que foi realmente animador. Em forma, é capaz de dar passes muito criativos, algo que deverá render highlights bonitos até o fim de sua carreira. Leandrinho, de outra forma, surge como um defensor correto, coisa que os anos de experiência lhe deram, afinal, não era exatamente conhecido pelo setor defensivo na época de Phoenix. Além do mais, suas investidas a cesta continuam surpreendentemente explosivas, o que é para aplaudir de pé, considerando sua idade. Na seleção, vai ter responsabilidades maiores de criação e agressividade no ataque, o que vai abaixar sua eficiência, mas talvez não a eficácia.

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Fazendo sombra a dupla do parágrafo anterior, estarão lá Vitor Benite, Raul Neto e Rafael Luz. Nenhum passa dos 25 anos. É um traço de renovação, embora você possa discordar da qualidade. Ambos estão fazendo carreira internacional, Raul há mais tempo e mais consolidado. Após anos a fio na Espanha, saiu do Murcia para o Utah Jazz, que o deixou mais forte e veloz, o que é ótimo, considerando que é baixo até para os padrões internacionais. Também parece mais agressivo. Benite foi para o time em que Raulzinho jogava e ainda não foi efetivo. E há de se respeitar o tempo de adaptação. Por mais que o NBB esteja melhorando ano após ano, a Liga ACB exige muito mais, até para um time mediano. A diversidade física é maior, além do fato de ser outro país, outra língua e outra cultura, apesar do tempero latino. O fogo de seus arremessos, todavia, funcionaram razoavelmente bem. Luz, criticado, faz as coisas que não chamam a atenção do torcedor de mente futebolística. Não é de fazer malabarismo, não é um jogador muito criativo, mas é correto e sóbrio. Apesar de não ter uma grande especialidade, sabe fazer várias funções, que lhe valerem até um título de torneio de habilidades no NBB. É um jogador que os técnicos adoram, que controla o ritmo de jogo com muita calma, não força e barra e se dedica muito na defesa. Ótimo contraponto pro elenco. E é jovem, tem tempo para crescer em outros aspectos, sobretudo num clube formador como o Laboral Kutxa, ainda mais sobre as atenções de Sito Alonso, o técnico perfeito para isso na Espanha.

Aí que me cai a lembrança que, nas alas, o buraco é mais embaixo. Marquinhos está no auge físico, coisa que não deve durar tantos anos, considerando sua idade. Com seu arremesso e estatura, pode ser que até faça uma transição para a posição 4 no futuro. Além do ala flamenguistas, os velhos de guerra Guilherme Giovannoni e Alex Garcia continuam ali, ambos muito produtivos a nível nacional, um deles ainda um carrapato de elite no internacional. Guilherme, por questões físicas, tem atuações mais limitadas. Faz parte, afinal, não é culpa sua. Dependesse só da parte técnica, ainda estaria muito bem.

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Para a renovação, o nome que desponta é Lucas Dias, um ala de 2,07 de altura que tem jeito de ala-pivô também, pela questão dos rebotes e do jogo de costas para a cesta, ainda mais se considerarmos o quanto essa coisa de Small Ball tem repercutido. Ainda precisa de mais trato na defesa, principalmente melhorar sua explosão física e trabalho de pés, mas não é como se fosse uma negação. No ataque, tem um pacotão completo e animador. Outros candidatos são Leo Meindl, um ala alto e habilidoso no ataque, porém cheio de problemas defensivos, e Bruno Caboclo, esse rapaz que pouco vemos jogar (porque não queremos, afinal, a D-League disponibiliza tudo pra gente), que tem braços enormes e uma condição atlética privilegiada, mas que carece de refino e habilidades individuais marcantes. Aos 20 anos de idade, podemos indagar algumas questões, contudo, ainda é necessária paciência. Está num lugar que costuma alavancar desenvolvimento, mesmo que continue por lá ou não daqui 2 ou 3 anos. E cada um evolui à sua maneira, basta lembrar que Tyson Chandler e Bismack Biyombo demoraram a valer milhões, embora pivôs sintam mais o aspecto físico do jogo profissional que os perimetrais. Se aprender a usar as ferramentas que tem, Caboclo vira uma máquina. É dosar as expectativas.

No NBB, nomes interessantes não cansam de surgir, principalmente na armação. Ricardo Fisher é o mais preparado, sabemos, já com passagem por seleção. Pena a lesão ter vindo num timing tão ruim, talvez na horar que surgisse interesse internacional. Além de Fisher, Henrique Coelho, Humberto, Deryk Ramos e Davi Rosetto vem crescendo por suas equipes. Georginho chama a atenção pelo tamanho e envergadura impressionantes, sobretudo da NBA, porém ainda necessita de desenvolvimento e tempo de quadra. Nesta posição, dá pra sentir firmeza, assim como no garrafão.

Dentro da área pintada, Lucas Bebê pode não ter suprido expectativas, mas já possui um jogo interessante e efetivo, que rendeu na Liga ACB como protetor de aro ultra móvel para sua altura, que pode passar a bola da cabeça do garrafão e tem uma cabeleira danada. Qualquer semelhança com algum outro pivô brasileiro é (ou não) mera coincidência. Wesley Sena vai continuar sua curva de desenvolvimento no Barcelona, que não cansa de revelar prospectos, tais como Ricky Rubio, Mario Hezonja, Ersan Ilyasova, Alex Abrines e, para a classe de 2017, o espetacular Rodions Kurucs. A tradição é grande, embora nem sempre aproveitem todos. Alto, esguio e corredor, Wesley já teve seus brilhos aqui e ali no Bauru, mas a chance de agora é de outro patamar, e tomara que dê certo. Ainda desponta Michael Uchendu, filho de nigerianos que vieram para o Brasil, trazendo da África a envergadura que os prospectos de lá tem. Em termos de corpo, lembra produtos como Biyombo e Capela. Talvez seja tão cru quanto ambos aos 18 anos.

Dá para ver que, mesmo sem ajuda nenhuma da CBB, os talentos teimam em aparecer. E tudo bem, a entidade faz questão de piorar ao cancelar seus campeonatos de base e fazer planejamento terríveis que precisam da imensa boa vontade de gente disposta a fazer o basquete acontecer para darem certo, como conta Fábio Balassiano. A LNB, nos seus termos, ainda tenta, com a inserção da ótima Liga de Desenvolvimento. Fazendo este texto, tenho certeza que esqueci de vários que mereciam ser citados. Aos trancos e barrancos, a renovação acontece. Se não aparecem outros Nenês, Splitters e Varejões, que cada um cresça o máximo possível para a continuidade da famigerada seleção brasileira. Esse problema de renovação não é exclusivo daqui, basta ver como Argentina, Espanha e Lituânia não conseguem fazer renovações profundas na base, embora as duas últimas ainda revelem talentos consistentes e não espetaculares todos os anos.

As Olimpíadas estão aí. Uma geração se vai. O quanto vamos sentir, aí é uma história longa e que depende de muita gente. O resultado final não vai mudar nada e é bom que não tenhamos essa ilusão. Seja medalha de prata ou caindo na primeira fase, a estrutura que está aí precisa de mudanças muito mais profundas do que um metal precioso pode oferecer. Um resultado positivo é um ganho que só para jogadores e comissões, mas para a confederação, nada. Seus escândalos não podem continuar. Com medalha ou não, precisamos de mudança. Que 2016 seja apenas um ponto de início para ela.

#MudaCBB #QueremosBasqueteDeBase

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