All Around: Like a Rolling Ball

Saudações caros leitores do TimeOut Brasil!

Algumas vezes, quando estamos escrevendo acabamos nos deparando com  modelos engessados e repetitivos de escrever nossas colunas. Para não tornar a experiência de escrever sempre a mesma coisa, o ideal é que o escritor tente usar de novas ideias e formas para escrever seu texto, seja lá para seu prazer ou para o prazer dos leitores.

Mas o que você leitor tem a ver com minha falta de acomodação? Simples, a partir deste post, este colunista que vos escreve começará com uma coluna que pretende ser mensal, onde associo uma música de qual eu gosto a qualquer coisa relacionada a basquetebol. Como este singelo colunista tem em suas veias o blues e o rock, as músicas que relacionarei serão normalmente desses dois estilos, a partir do momento em que a inspiração vier, ou quando me “der na telha” que vou escrever algo naquele momento.

Neste momento que chegamos ao nosso título do post. Like a Rolling Ball será um texto onde usarei da famosa e espetacular obra de Bob Dylan, Like a Rolling Stone. Para quem não conhece, Like a Rolling Stone foi gravada em 1965, por um dos compositores mais geniais que passaram pela Terra, Bob Dylan. A música é um marco para a história do rock, sendo que marca a passagem do som folk de voz, violão e gaita para uma fase mais eletrificada do som de Dylan. Em um meio de puristas do mundo folk, Dylan foi quase que apedrejado no Newport Folk Festival. Mas como ele não estava nem aí para os mais conservadores, continuou seguindo seu caminho rumo a aquietação. A própria letra é um puro sarcasmo sobre a condição própria de Bob Dylan e do mundo em que girava em torno dele. Esta composição foi tão importante, que a revista Rolling Stone, por meio de uma lista, a colocou na posição de Melhor Música da História em um ranking que contava com quinhentas músicas, dada a importância que ela teve para o rock e a música popular de uma forma geral. Se quiser se aprofundar no assunto, existem inúmeros livros falando da carreira de Bob Dylan ou mesmo somente desta música, como Like a Rolling Stone – Bob Dylan na Encruzilhada, de Greil Marcus. Se você gosta de boa música e ainda não conhece a obra de Dylan e essa música, pesquise e se aprofunde, porque vale muito a pena, poucos tem o talento que Bob possui para compor.

Mas deixando a história um pouco de lado, vamos a parte que realmente interessa para você fãs de basquete, vamos usar e abusar dessa letra que nos permite brincar pelo mundo do esporte da bola laranja. Não utilizarei a letra inteira, porque algo nem tudo teria sentido. Colocarei a letra, farei um análise e colocarei uma tradução vinda direta do site letras.mus.br para vocês que não gozam de muita intimidade com a língua inglesa.

“Once upon a time, you dressed so fine / Threw the bums a dime in your prime, didn’t you? / People’d call, say: ‘beware, doll! You’re bound to fall!’ / You thought they were all kiddin’ you / You used to laugh about / Everybody that was hangin’ out / Now you don’t talk so loud / Now you don’t seem so proud / About having to be scrounging for your next meal ( Era uma vez, você se vestia tão bem / Em seu auge, dando esmola aos mendigos, não era? / As pessoas diziam ‘Cuidado, gatinha! Você pode se dar mal!’ /  Você pensou que estavam brincando com você / Você costumava rir / De todos que vadiavam a sua volta / Agora você não fala tão alto / Agora você não parece tão orgulhosa / Tendo que vasculhar o lixo pela sua próxima refeição)”

O trecho pode ter um sentido bastante forte dependendo da interpretação que vamos colocar. Contudo, meu objetivo não é detonar ninguém dizendo que determinado jogador era egoísta. Vejamos como irei usar a letra: um jogador teve um auge bastante produtivo, em que ganhava uma nota para fazer determinada função (e fazia isso bem feito); mas agora não tem mais tanto valor, não consegue ser produtivo como já foi e ganha um salário bem longe do já ganhou.

Se você pensou em Ben Gordon, está certo! Se eu fizesse esse texto ano que vem, provavelmente estaria falando de Amar’e Stoudemire, como também poderia falar de Andris Biedrins, que não voltará ao mundo da NBA. Mas vamos falar do arremessador, que até que recebeu um generoso e gordo contrato (proporcionalmente ao que ele realmente vale, fica registrado) do Orlando Magic, mas que terá que mostrar serviço para não afundar em mais nenhum banco, como afundou em um Charlotte Bobcats (agora Hornets) que quase não possuía arremessadores do perímetro.

Quando valia 13.2 milhões de Obamas, Gordon era muito útil, já que conseguia fazer 20.7 pontos por jogo, com 41% de aproveitamento dos arremessos de 3 pontos. Porém Gordon foi se deteriorando e parando de arremessar com maior precisão. Foi parar no ex-fracassado time de Charlotte, uma equipe ruim em que poderia assumir algum lugar de destaque. Não foi o que aconteceu e o ex-Bobcats só foi se tornar um time de basquete de verdade quando Gordon atuou por 19 jogos, com médias de 14.7 minutos por jogo e acertando 27.6% dos arremessos de três pontos. A “gatinha” Ben Gordon, que se vestia tão bem no Chicago Bulls foi perdendo seu valor, afundando rapidamente de Detroit até Charlotte.

Agora ele busca lugar em uma equipe em pleno tank e que dá claros privilégios ao exímio defensor Victor Oladipo. Contratado para ser supostamente mentor dos jovens da equipe junto com um contrato bastante gordo de Channing Frye, Gordon terá que tirar a ferrugem das articulações e aumentar consideravelmente sua consistência para não sair do mundo da NBA, embora o Magic goste de tomar decisões estranhas desde que Dwight Howard saiu de lá. Ninguém gosta de pagar caro para um jogador de garbage team. Seu valor agora é 4,5 milhões de doletas, mas talvez não valha o mínimo para veteranos. Talvez algum dia entenderemos o porquê da equipe da Disney ter jogado dólares ao alto. Ao que tudo indica, o futuro de Gordon será vasculhar o lixo para obter alguma refeição em algum time que esteja louco disposto a pagar algo para ele.

“How does it feel? / How does it feel? / To be without a home? / Like a complete unknown? / Like a rolling stone?” ( Qual é a sensação? / Qual é a sensação? / De estar sem lar? / Como uma completa desconhecida? / Como uma pedra rolando?)

O mítico refrão da música será usada para falar de alguém que está sem rumo, sem contrato, que não consegue ser mais lembrado seus feitos e se tornou um completo desconhecido para o fã de basquete com memória mais curta.

Temos dois fortes exemplos: Andrew Bynum e Gilbert Arenas. Vamos usar o exemplo mais fresco em nossa cabeça. Bynum era um excelente pivô, um cara com refinados recursos para pontuar no garrafão e que vinha em notado crescimento até que… uma troca aconteceu. Andrew Bynum foi parar no Philadelphia 76ers. Vinha de sua melhor temporada na carreira, com médias de 18.7 pontos, 11.8 rebotes, 1.9 tocos e 55.8% do aproveitamento dos arremessos; mas o Los Angeles Lakers resolveu que queria Dwight Howard e Bynum foi parar em Philadelphia. Por lá se contundiu e não jogou uma partida sequer. Uma temporada perdida para aí sim cair no colo de um Cleveland Cavaliers disposto a brigar por alguma coisa. Porém atuou em apenas 24 partidas, com médias de 8.4 pontos e 41.9% de aproveitamento dos arremessos de quadra em cerca de 20 minutos por jogo.

Pegou fama de que não tem vontade de jogar. Com inúmeros rumores de que era ruim de vestiário, Bynum saiu dos Cavs, envolvido em uma troca com o Chicago Bulls por Luol Deng. Foi dispensado sem pestanejar, mostrando que o Bulls não estava a fim de aturar o problemático jogador. Acabou indo para o Indiana Pacers. A sua chegada combinada a chegada de Evan Turner e a saída de Danny Granger coincidiram com a desgraça do time de Indianápolis. Sua fama conseguiria piorar e logo foi embora do Pacers. Andrew Bynum se transformaria de jogador importante para um Free Agent indesejado e sem contrato. Como será que Andrew Bynum se sente? Um completo desconhecido para os General Managers? Uma talento desperdiçado?

“Nobody has ever taught you how to live on the street / And now you’re gonna have to get used to it” (Ninguém nunca te ensinou como viver nas ruas / E agora você vai ter que se acostumar com isso)

Um jovem jogador vindo da universidade, cheio de talento para dar, nunca tinha ido para as ruas da NBA e terá que render alguma coisa e provar que merece um lugar na liga, valendo a aposta que a franquia fez nele. E agora? Ele terá que se acostumar com isso e aprender tudo poderá ser uma tarefa muito difícil. Mas seu talento poderá nunca se tornar realidade.

Gred Oden saiu do mundo escolar para a NBA como um dos principais prospectos da década. Extremamente dominante, muito se esperava dele, lembrando que foi a primeira escolha de um Draft que tinha Kevin Durant. Oden foi atormentado por contusões e acabou nunca rendendo o que poderia. Seu imenso potencial foi se deteriorando e ele tentava ser apenas um jogador de basquete. E ele sequer conseguia isso, indo parar no Miami Heat na última temporada, como uma aposta destinada a dar errado.

As ruas foram duras demais para Oden e agora ele amarga a condição de não ser um jogador de basquetebol, algo que aconteceu com Darko Milicic, que foi rumo ao mundo das artes marciais.

” You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns / When they all did tricks for you / You never understood that it ain’t no good / You shouldn’t let other people get your kicks for you” (Você nunca se virava pra ver os malabaristas e palhaços / Quando eles faziam truques para você / Você nunca entendeu que isso não é bom / Você não deveria deixar que eles se dessem mal por você)

Nessa nova metáfora, vamos usar o paradoxo do cara que faz o serviço “sujo” e do craque individualista, o famoso caça stats. Os malabaristas e palhaços que se sacrificam para o time, fazendo o possível para a equipe render e correr para outro companheiro que na realidade pouco estava ligando para isso. O craque que não se importa com quem faz o serviço sujo, já que eles seriam meros role players.

James Harden é um exemplo disso. O barbudo da equipe do Houston Rockets tratou de dar declarações confusas e egoístas durante as férias sobre a importância de seus companheiros (Chandler Parsons mandou um abraço!). O jogador da equipe texana é sabidamente e assumidamente um dos defensores mais preguiçosos que o basquetebol mundial já conheceu. A partir do momento em que ele deixou o papel de sexto homem no Oklahama City Thunder para o protagonismo em Houston, Harden se tornou um jogador displicente e desatencioso na defesa, virando de motivo de piada mundial. Seu ego bastante inflado corre o sério risco de maltratar os companheiros que buscam brilhar na sua sombra, como Patrick Beverley. Se isso conturbou o vestiário no Texas não sabemos, mas que a equipe ficou pior, seja lá por qual motivo (principal foi não conseguir contratar um FA de peso).

Fato é que alguns jogadores não gostam de jogar com outros que se sintam superiores e isso pode não fazer bem para a imagem do craque e para o futuro da equipe. A não ser que o “Barba-do-Capeta” contorne o que ele fez, o Rockets poderá se tornar uma equipe menos atrativa nas próximas temporadas.

“You used to be so amused / At napoleon in rags and the language that he used / Go to him now, he calls you, you can’t refuse / When you ain’t got nothing you got nothing to lose” (Você costumava se divertir tanto / Com o Napoleão de trapos e a linguagem que ele usava / Vá até ele agora, ele está te chamando, você não tem como recusar / Quando você não tem nada, você não tem nada a perder)

Para encenar nossa nova interpretação, vamos chamar para o palco senhor LeBron James e seus comparsas. LeBron é o Napoleão, cheio de trapos (seu basquetebol, neste caso). James Jones jogava com ele e se divertia em ganhar alguns títulos. Shawn Marion está num estágio final de carreira e não tem nada a perder, tem como recusar o convite de jogar ao lado de um dos principais Franchise Players da NBA e que ainda é altruísta?

O poder de James em chamar a atenção de bons jogadores em final carreira, desde que eles estejam dispostos a ganhar o mínimo para veteranos em troca da possibilidade de título é notável. LeBron é um jogador que não amarela mais e estava carregando uma equipe nas costas ao fim de uma série de finais bastante destrutiva para o Miami Heat. Com “The King” arrasado depois de ver esta situação, resolveu chamar Kevin Love, Mike Miller, Shawn Marion e James Jones para entrar na brincadeira de disputar um título em Ohio. Napoleão é atraente demais para ficar dando “bobeira”, resta saber se vai dar certo.

Para fechar, uma versão dos Rolling Stones da música Like a Rolling Stone.

Agora resta de vocês, caros leitores, se vocês gostaram. Comentem! Sua opinião é muito importante!

Se vocês gostam deste tipo de texto, acompanhem com afinco o Bola Presa e o Two-Minute Warning.

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