Os Mistérios do Potencial

Bruno Caboclo

Potencial. Uma das características mais procuradas e também mais difíceis de se entender da história do basquetebol. O potencial é algo tão misterioso quando desvendável aos olhos dos vários GMs da NBA. Esta nobre qualidade está na cabeça dos vários scouts da liga e sua determinação as vezes é enxergada por cada um de maneira diferente.

O motivo de escrever sobre potencial vem de várias dúvidas sobre esse quesito em vários lugares do mundo online. A principal dessas era como saber que jogador tem um potencial alto e outro tem potencial baixo, mesmo o outro tendo rendido mais durante sua vida desportiva antes de chegar ao profissional.

Mas aí chegamos a questão: Como definir o potencial de determinado jogador? Uma pergunta complicada, mas vamos tentar respondê-la.

Começando por algo que ocorreu recentemente. O brasileiro Bruno Caboclo foi draftado na pelo Toronto Raptors na escolha de número 20 de um dos Drafts mais comentados e esperados da história, surpreendendo a todos que acompanham a NBA. Não somente isso, deu um contrato garantido para um jogador que era reserva em uma liga profissional de basquete considerada pequena, o NBB (Novo Basquete Brasil).

A prática de selecionar jogadores estrangeiros com potencial no draft já é comum, mas normalmente vem em escolhas de segunda rodada e em nomes mais badalados e conhecidos. Mas o que Masai Ujiri (GM do Raptors) enxergou nele um potencial absurdo, a ponto de se arriscar dessa forma, ao invés de pegar um role player que poderia render mais de imediato.

Ujiri foi menos massacrado depois das atuações de Caboclo na Summer League de Las Vegas, mostrando que pode vir a se tornar um bom jogador e que é menos cru do que lhe era creditado.

Mas agora chega de historinha! Vamos descrever e tentar entender aonde está o potencial desse garoto e de outros jogadores, afinal cada um tem sua maneira de ter essa qualidade.

Primeiramente, Bruno é uma aberração física. Possui atributos físico-atlético invejáveis, com uma envergadura monstruosa graças a seus braços quilométricos, tornando-o um potencial defensor de elite.

Sim, potencial pode representar também a capacidade de proteger sua cesta. Seus braços do tamanho de postes o ajudam a roubar bola, dar tocos, desviar passes e tudo o que é possível para atrapalhar o jogador adversário. Se determinado jogador tiver essa característica e ainda for rápido e explosivo vai ser mortal em contra-ataques. Corey Brewer tem seu lugar na liga muito por causa disso.

Mas não, o potencial do jovem brasileiro não se baseia a um mero Corey Brewer. Ele mostrou que arremessa até com alguma consistência, algo bem deficiente no jogador do Minnesota Timberwolves.

Com 2.05 metros e 2.32 de envergadura, o alcance vertical do ex-jogador do Pinheiros é gigantesco e facilita bastante no ataque também. Arremessar por cima de seus marcadores ajuda muito, coisa que Kevin Durant faz muito bem. O MVP da última temporada usa de seu físico privilegiado pra pontuar das mais diversas maneiras, principalmente em arremessos. Daí vem as comparações com Kevin Durant. O jovem brasileiro pode ter até potencial pra se tornar um Kevin Durant, mas não iludiremos com isso. É extremamente improvável e está bem fora da realidade (pelo menos por enquanto) que isso realmente aconteça.

O que anima é saber que o Brasil poderá contar com um ala alto que poderá arremessar e defender muito bem. Melhor que disso só dois disso, já que esse tipo de jogador tá em falta por aqui.

Mas os mistérios do potencial são ainda maiores. Muitos que tem potencial são verdadeiros fiascos por diversos motivos e acabam não chegando nem perto do que se esperava deles.

Alguns simplesmente não se mantém saudáveis, como foi com Gred Oden. Uma máquina defensiva e dominante no ataque. Aquele jogador que se esperava 25 pontos, 12 rebotes, 3 tocos de médias. Mas se machucou demais e hoje tenta arrancar 5 minutos por jogo onde conseguir contrato.

Temos outro caso ainda, quando os jogadores não tem cabeça, são piradões ou não tem o psicológico preparado pro basquete profissional. Michael Beasley é um bom exemplo. Não foi um fiasco total, já teve inclusive médias legais. Mas ninguém o quer, se envolve em problemas demais, não pensa no que faz e parece ser até ruim de vestiário.

E ainda existe o caso Hasheem Thabeet. Recentemente trocado por um pacote de Salame Zacarias (exceção comercial) e imediatamente dispensado, o gigante tanzaniano foi um fiasco do início ao fim. Depois de ser selecionado na sagrada pick 2 do Draft de 2009, pelo Memphis Grizzlies, o jogador de 2.21 metros não chegou nem perto de seu potencial. Parece ser somente um cara da altura de um caminhão, mas sem talento algum pro basquete em alto nível e mais desengonçado que uma girafa andando com pernas de pau.

No fim das contas, há várias  maneiras de não dar certo na NBA.

Contudo, ainda tem outra coisa que é talvez o mais importante do jogador com potencial: os lampejos de genialidade. Não adianta um cara de 2.30 metros e 2.79 de envergadura se ele mal consegue quicar a bola mais de uma vez no chão. Caras com lampejo de genialidade e que mostram que fazem (ou podem fazer) várias coisas em nível absurdo no profissional.

Joel Emibiid é esse caso. O cammaronês de 2.15 metros mostrou que pode ter o brilhantismo no ataque que lembram os pivôs superdominantes das gerações passadas, especialmente Hakeem Olajuwon. Alé disso, possui uma notória capacidade defensiva.

O que mais chama a atenção é que ele joga a pouquíssimo tempo, logo tem upside altíssimo, com muito ainda pra ser desenvolvido.

Portanto, potencial está ligado ao talento bruto. Chegando próximo de uma definição, seria a capacidade do jogador tem para praticar o esporte, aliado as suas características físicas e sinais de talento que o jogador demonstrou, de diversas maneiras em quadra. E ainda, demonstra ter as ferramentas pra se desenvolver mais ainda.

Desse conceito, podemos dizer que alguns jogadores tem baixo potencial. Alguns por que estão perto do que auge e parecem que não irão fazer mais do que isso. Outros não tem as ferramentas para melhorar. E alguns só fazem uma coisa em quadra.

Vamos pegar o caso de Doug McDermott. Um dos maiores cestinhas da história do basquete universitário, ele tem potencial baixo devido a sua idade já avançada para um calouro e por ser um senior. Aliado a isso, tem braços de jacaré, é uma passarela na defesa e pode até ficar preso entre as posições 3 e 4, que causam muitos busts por aí.

No mais, vemos o quanto esta característica é complexa e representa algo bastante abstrato, algo alcançável, mas nem sempre sempre realizável. Muitos GMs que estiverem tankando e que não tem os olhos clínicos como o do Spurs, por exemplo, estarão bastante atentos aos vários atletas, buscando o novo Jordan, Bird, Magic e por aí vai. O que podemos fazer é desejar boa sorte a eles e que eles desenvolvam bem suas joias. O basquete agradeceria em ver todos os “monstrinhos” se tornando grande estrelas da melhor liga de basquete do planeta.

%d blogueiros gostam disto: